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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Criado em comunidade no Rio, filho de doméstica foi aprovado em medicina aos 34 anos

Criado em comunidade no Rio, filho de doméstica foi aprovado em medicina aos 34 anos

 


"Eu nunca tive o sonho de fazer Medicina. Por que eu nunca tive esse sonho? Porque a medicina é muito distante da minha realidade, não tinha nem como pensar nisso lá atrás, era totalmente fora da minha possibilidade de vida". Esse era o panorama do policial rodoviário federal Vinícius Oliveira, nascido em uma comunidade do Rio de Janeiro.


Mas, aos 34 anos, o que parecia irreal ganhou vida. Com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ele foi aprovado em uma universidade federal e, atualmente, com 38 anos, está no sexto semestre da graduação e a um passo de se tornar médico. Vinícius, que já tinha conquistado o título de o primeiro da família Oliveira a ter um diploma de Ensino Superior, está bem próximo de trazer mais um feito inédito para a casa. 

Esse é o terceiro episódio da série de reportagens Onde o Enem me levou?, que conta a história de vários brasileiros que,  a partir do exame, conquistaram marcas profissionais, pessoais e financeiras transformadoras. Ao todo são cinco episódios que serão publicados no Terra ao longo das próximas duas semanas. Acompanhe e se inspire nesses relatos.  


O policial é preto e cresceu na comunidade de Padre Miguel, na Zona Oeste da capital fluminense, onde a criminalidade e as dificuldades da vida eram uma parte cotidiana. "O crime ali era totalmente mesclado no meio da nossa realidade. Você via tiroteio, tráfico de drogas, toda a problemática de morar em uma comunidade". 


Crescer em um ambiente tão adverso não foi fácil, mas ele conta ter tido a sorte de contar com figuras importantes em sua vida. Sua mãe, uma mulher forte e trabalhadora, sempre se esforçou para sustentar ele e seu irmão. Apesar da ausência do pai, o policial também contou com o apoio da avó e outros membros da família. 


"Mas, quando falo em carreira, sobre um exemplo do que eu gostaria de fazer, eu nunca tive. Na minha infância e adolescência, entre 1990 e  2000, não tinha internet. Então, eu não tinha ninguém, nem que eu visse, porque ali na comunidade, a maioria da população é gente trabalhadora, que luta, mas não tem, por exemplo, um médico, não tem um policial rodoviário federal, não existe isso na nossa realidade".

Criado por 'mãe solo'

A mãe de Vinícius começou a trabalhar aos 7 anos de idade como ajudante em casas de família, onde desempenhava tarefas de faxina e auxiliava nas atividades domésticas das pessoas que a empregavam. Teve Vinícius com 19 anos e seu irmão com 21, enquanto estava casada com o pai deles, mas acabou criando os filhos sozinha.


"Eu me lembro do meu pai presente até uns 6 ou 7 anos de idade. Logo depois ele foi seguir o caminho dele, as coisas dele e nunca mais participou ativamente das nossas vidas. Nem da nossa criação, nem da parte educacional e muito menos da parte financeira", contou o estudante de Medicina. 


Em meio às dificuldades financeiras e à ausência do pai dos filhos, a mãe de Vinícius continuou trabalhando para sustentar a família, desempenhando funções principalmente em serviços gerais e na área de limpeza. Além disso, também trabalhou como cuidadora de idosos e inspetora de colégio. 


Atualmente, aos 57 anos, ela concluiu sua formação no ensino superior, com um diploma em gestão de turismo. Segundo Vinícius, dentro das possibilidades e responsabilidades de criar dois filhos, ela retomou sua educação. Terminou a 8ª série aos 42 anos e o ensino médio aos 46 anos. Com determinação, ela conquistou seu diploma de ensino superior, mesmo depois de criar ele e o irmão. 


"Também é um ponto de exemplo para nós [filhos], porque mesmo depois de mais velha, já com os filhos criados, ela foi lá correr atrás da educação dela e hoje ela tem o ensino superior completo", disse o policial, orgulhoso da mãe.


A paixão pelos estudos


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